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#Forabolsonaro é Fora MP1045. Para as multidões o Estado de Direito só faz sentido como vida.

  • Foto do escritor: Rodrigo Guerón
    Rodrigo Guerón
  • 16 de ago. de 2021
  • 4 min de leitura

Tenho tido a impressão que a oposição está quase que completamente enredada nas novelinhas de Bolsonaro, como agora com alguns de seus principais líderes o dia inteiro na internet para defender os "ministros do supremo" Moraes e Barroso, apresentados como redentores da democracia, enquanto o bolsonarismo faz passar reformas neoliberais com uma violência que lhes é inerente, em uma covardia que esmaga a população.

Pode parecer um velho jargão de esquerda o que vou dizer, mas acho sinceramente que a nossa única chance de derrotar os ataques à democracia é nas ruas, com mobilização. A população não vai defender uma democracia abstrata que para ela, na maioria das vezes, não faz e não fez muita diferença; e nem vai defender instituições que, com uma boa dose de razão, ela avalia que tendem a agir contra ela; porque de fato quase sempre agiram. Aliás, não é do nada que o fascismo mobiliza contra estas instituições, o problema dos fascistas nunca foi apenas as mentiras que eles contam, mas também as verdades que mobilizam a seu favor. Querer que a defesa do poder judiciário mobilize a maior parte da população brasileira é de um elitismo impressionante. É ignorar o que este poder sempre representou para mulheres e homens pobres e negros, para a maioria dos trabalhadores e assim por diante. Não é que eu não ache importante defender o Estado de Direito e a democracia, mas a defesa destes só existe de fato, se se produzir como direito de fato, isto é, direito e ameaça ao direito experimentados pela população de forma efetiva.

Então, onde está a luta real pela defesa da democracia? Está onde a destruição da democracia funciona no mesmo movimento da destruição de direitos, destruição esta que empurra o povo para o empobrecimento, para uma vida esmagada pelo trabalho precário e para a falta quase completa de condições de reagir, seja por causa da violência do trabalho extremos em meio a pobreza, seja pela repressão do Estado cada vez mais violenta.

A mobilização mais importante que se tem a fazer agora é contra a MP 1045, essa nova "reforma trabalhista" que cria um trabalhador sem direitos básicos, sem previdência social, sem férias e sem 13º salário. Essa MP é de uma violência extrema, é uma operação escravocrata, e a população percebe isso. Tem ainda a parte que ataca o programa jovem aprendiz, atacando um grupo social que está na interseção entre estudantes e trabalhadores, criando a situação real que remete até a uma velha palavra de ordem clichê da esquerda, a tal "aliança entre estudantes e trabalhadores".

Me parece, no entanto, que boa parte da esquerda faz política pautada pela Globonews, reagindo na internet a pauta das grandes empresas de comunicação. Não consigo entender como o comando da mobilização #forabolsonaro não está chamando a luta contra a MP 1045 agora. Inclusive ela é a chance de dar novo fôlego e formato às manifestações que já tendiam a algum cansaço. Mas nem é isso o mais importante. O mais importante é que o #forabolsonaro só tem sentido como uma luta de defesa da vida, inclusive como uma aposta contra essa operação de naturalização da pobreza que se constrói menos como ideologia e mais como produção de uma impotência, como é típico do fascismo. O bolsonarismo aposta abertamente em um retorno de um apoio popular em 2022 a partir de uma recuperação econômica que, do ponto de vista macro, é até bastante factível. Mas exatamente, esse apoio só virá se, por exemplo, uma provável diminuição do desemprego com trabalho precário, extenuante, numa vida reduzida quase que a mera sobrevivência, for experimentado como uma espécie de "única alternativa". Eis a operação de produção e disseminação de impotência social, para a qual todo o aparato paranoico e mistificador do fascismo -- incluindo o produzido pelo neopentecostalismo -- joga um papel decisivo.

A propósito, em certos aspectos esta novelinha espetaculosa de homens bons contra homens maus (Barroso e Alexandre x Bolsonaro e Jeferson) a qual a esquerda adere, só alimenta esse tipo de operação. O modo como a maioria das lideranças de esquerda mergulham sem nenhum espírito crítico e sem o menor esforço de fazer uma análise política mais profunda e mais prospectiva, é também um tremendo sintoma de quanto a nossa esquerda é "gabineteira", como disse recentemente um amigo.

Ao contrário do que muitos avaliam, as poderosas greves do ABC no final dos anos 1970 e no início dos 80 foram decisivas para derrubarem a ditadura. Não apenas porque, em sendo inicialmente salariais, elas já foram políticas porque colocaram em questão a política econômica da ditadura, mas também porque a repressão deixou bem claro para os trabalhadores que eles precisavam lutar pela democracia. E de fato, depois de dias de greve, e com os sindicatos sob intervenção, os trabalhadores escreveram com os próprios corpos, no centro de São Bernardo, a palavra "democracia", em meio a uma nuvem de gás lacrimogêneo.

Não se trata aqui de provocar a repressão, mas de deixar bem claro que a luta antibolsonaro não é coisa de bom burgueses cultos e bem intencionados que parecem querer civilizar o povo. A MP 1045 é sentida diretamente como uma violência pela população, simplesmente por aquilo que de fato é: uma revoltante operação de retirada de direitos, de sujeição de milhões de trabalhadoras e trabalhadores, a maioria deles pobres; muito pobres e, é claro, a maioria deles negros, nordestinos, não brancos. Se a esquerda não tem essa luta como prioridade, se a campanha #forabolsonaro não a tem como a sua luta, então Bolsonaro talvez não tenha mesmo inimigos que o ameacem, e a miserável recuperação econômica que, quem sabe, ela possa vir a oferecer, corre o risco de ser vivida pela população como a que lhes resta.

Depois não adianta tomar porres na Pça São Salvador lamentando a "ignorância" do povo e batendo no peito para dizer "eu votei num professor".


Rodrigo Guéron


 
 
 

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